terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os Oráculos Yorubá



                                                                                  Meu Mérìndìlogúm

Todos conhecem o oráculo yorubá. Mas, poucos sabem como funciona. Atualmente é utilizado os búzios como instrumento para a comunicação com os deuses yorubá. O jogo de búzios  chamado de Mérìndìlogúm - que significa o numeral 16, é o mais comum dentre alguns oráculos yorubá.
É interessante ressaltar que cada tribo africana tinha sua própria forma de entrar em contato com as divindades para obter suas respostas. Ao contrário do que muitos pensam, o jogo de búzios é uma forma mais contemporânea de oráculo.


                                                                      ( schecebora golungensis - fruto seco, usado no  Òpèlè )


                                                                                     schecebora golungensis - fruto

 O mais antigo entre eles é o Òpèlè, elaborado com metades de uma fruta (semelhante a uma pera,  chamada schecebora golungensis, presas por uma fileira de correntes que, através de um só lançamento, se determina o Odú.

Há também o Íkim, sementes do dendezeiro; que, seguem o mesmo mecanismo dos búzios  Mas este deve estar acompanhado de um pó - produzido por cupins na arvore de baobá, onde são riscados em um tabuleiro os odus lançados. Neste caso são usados 21 íkins; mas, só se lançam 16.

                                                         
                                                                                     ( Ikin - fruto do dendezeiro)

O Mérìndìlogúm é o que temos de mais popular hoje, no qual se utiliza os búzios  Comumente se utiliza 16 búzios  mas algumas "nações" usam 21, sendo que 5 deles ficam guardados no Ageré Ifá (recipiente onde se guarda o oráculo).

Bem, como é feita a leitura? 

O povo yorubá sempre prestaram homenagem especial aos ancestrais; e assim como eles tinham seus ancestrais, os deuses também o tinham, e são denominados de Odú. Odú é um termo na língua yorubá para determinar estados de "tempo" - horas, meses, anos, Eras... Este mesmo termo é utilizado para designar os Grandes Senhores da Criação - os 16 caminhos por onde Odudua percorreu até criar a Terra e seus filhos, os "destinos". São os "Gênios da Criação"; Eu costumo compará-los aos Titãs dos gregos; os Gigantes dos nórdicos; aos Totens dos aborígenes - todos os mais "antigos" que deram origem aos deuses e semi-deuses. Cada um destes caminhos levam a mais 16 atalhos, que são chamados de Odu kékèrè ou Òmò Odu - Odus menores. São esses Odus menores que determinam as origens do orixá, o que popularmente conhecemos como "qualidades de orixá". Para cada Odú existe um Itán (conto/lenda) e nestes versos estão contidas as histórias que sinalizam a situação do consulente.

Assim sendo, temos um total de 256 versos ou situações. Por isso se torna uma leitura delicada e que deve ser bem observada. Para se ter uma leitura adequada é importante conhecer esses itans.

Quem são esses Odu's?

É bom esclarecer que, originalmente, os Odus se manifestavam através do Òpèlè Ifá, aquele instrumento com as frutas secas; no entanto posteriormente, com o desuso deste mecanismo e a popularização do Mérìndìlogúm, foi necessário fazer algumas adaptações para que se pudesse entender a manifestação dos Odu no oráculo. Mas, por que houve a necessidade de "adaptação" haja vista já existir os Odu? Muitos itans se perderam durante o tempo, e com a união de diversas tribos e culturas no decorrer da escravidão  foram juntando as peças e reuniram os itans através do Mérìndìlogúm - jogo de búzios.

A seguir vou citar estes Gênios da Criação em seu posicionamento original, através do Òpèlè Ifá:

1- Èjí Ogbè
2- Òyèkú Méjì
3- Ìwòrí Méjì
4- Òdí Méjì
5- Ìròsùn Méjì
6- Òwónrín Méjì
7- Òbàrà Méjì
8- Òkànràn Méjì
9- Ògúndá Méjì
10-Òsá Méjì
11-Ìká Méjì
12-Òtúrúpòn Méjì
13-Òtúrá Méjì
14-Ìretè Méjì
15-Òsé Méjì
16-Òfun Méjì

O que quer dizer esse "Méjì"? méjì é um termo na língua yorubá que determina "divisão", "polaridade", "bem e mal", "masculino e feminino". Assim, podemos dizer que esses Odu contém em sua essência as duas polaridades em equilíbrio, não cabendo ao sacerdote atribuir o positivo e negativo deles, esse só pode ser determinado pelos odu kèkèrè.


Agora, vamos ver como ficou o posicionamento deles no Mérìndìlogúm : (ao lado colocarei sua referência ao Òpèlè)

1- Òkànràn (8)
2- ÈjÌ Òkò (12) 
3- Étà Ògúndá (9)
4- Ìròsùn (5)
5- Òsé (15)
6- Òbàrà (7)
7- Òdí (4)
8- Éjì Onílè (1)
9- Òsá (10)
10-Òfún (16)
11-Òwónrín (6)
12-Èjìlá Sebora (3)
13-Éjì Ológbon (2)
14-Ìka (11)
15-Ògbegúndá (14)
16-Àlàáfía (13)


Lembrando que, mesmo havendo uma "referência" entre eles, são sistemas totalmente diferentes de manipulação e leitura. A contagem dos Odus se dá através da leitura de quantidades de búzios,  Ikin ou schecebora que caiam abertos ao final do lançamento. É relevante citar que o búzio aberto para os Odu é aquela fenda aberta pela própria natureza e não aberta pelo homem. Quando se considera a parte aberta pelo homem como a "boca" é um outro tipo de leitura, no qual não envolve a consulta aos Odu's, e sim aos orixás. Isso se deu porque, quando o homem precisou se comunicar diretamente com os orixás, Elegbará (Exú orixá), solicitou que o homem "abrisse" o outro lado para falar com eles. Então, quando queremos "conversar" com o orixá, consideramos o lado "aberto", aquele no qual impomos a força para "abrir a boca de Exú". Quanto aos Odu's, a própria natureza se encarregou de abrir.

Hoje em dia é comum ver várias pessoas que se propõe a leitura do oráculo yorubá; Isso seria correto? No meu ponto de vista, desde que haja conhecimento necessário para a interpretação dos itans, assim como a preparação do oráculo - que exige uma ritualística  não vejo problema. Entretanto,  o mais aconselhável é que a pessoa tenha uma preparação também na liturgia yorubá, o que se dá no processo de iniciação a religião.

Nos próximos post falarei individualmente e sobre cada Odu e seus respectivos kèkèrè - odu menores, nos aspectos do Òpèlè e do Mérìndìlogúm.


Luqiam, 29-01-2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Matriarcado yorubá



É bem corriqueiro encontrar simbolismo patriarcal nas casas de axé pela supremacia de Oxalá - como a divindade "pai". Entretanto, a religião yorubá está ritualisticamente embasada em um forte matriarcado.
O Sagrado feminino sempre foi de extrema importância dentro da religião dos orixás, de maneira sutil, mas, de extrema significância.

Apesar do xirê ( dança ritualística de abertura nas cerimonias), saudar uma linhagem masculina primeiro, o feminino já teve sua participação desde os primeiros passos de preparação das cerimônias.  

Desde os primórdios  a mulher yorubá tinha um poder especial dentro da liturgia, não só por se tratar daquela que gera a vida, mas por outros atributos também, como a idealizadora e realizadora de toda criação, sustentada na figura, pouco difundida de Odudua - Uma Iyabá - orixá feminino. Odudua é a "Mãe Terra" em sua essência, nada se faz sem reverencia-la antes. Única orixá que se veste de negro, jamais assentada nem se apresenta no orí (cabeça) de ninguém.



De Odudua nasceram as Iyámí ( Mães ancestrais), aquelas tão "assustadoras" que se tornaram um tabu dentro da religião. No entanto, toda casa de axé deve reverencia-las e cultua-las, porque elas são as fundações de tudo! Os quatro cantos dos templos são dedicados a Elas. Popularmente vistas como "as bruxas negras", Elas detém um poder quase que absoluto sobre toda vida e morte; os animais ovíparos são suas representações - répteis e pássaros, sendo Oxorongá (uma espécie de pássaro Pré-Histórico, semelhante a uma coruja) seu animal preferido. Até Exú estremece diante delas.

As Iyámí confere poder a todas as Iyabás, principalmente Nanã, Oxum, Yemanjá e Yansã. Elas são responsáveis pela circulação de todo sangue no corpo da fêmea, assim como seus ciclos menstruais. O culto as Iyámí é semelhante ao culto aos Egunguns ( Pais ancestrais ); no entanto com poderes e atributos mais relevantes.

Dentro da liturgia yorubá, só aqueles que "carregam" útero podem se aproximar tranquilamente das Iyámí. Quando, por ventura, não houver uma mulher que possa realizar tais ritos, um homem deve se travestir para esconder sua genitália e usar uma máscara de pássaro.

Muitos não conhecem o poder e as atribuições destas Grandes Senhoras. E dado tal ignorância, muitos ritos ficam a desejar. Futuramente, em outros post, citarei mais influência destas Mães Ancestrais na liturgia yorubá, e aos poucos entenderão a importância e status do Sagrado Feminino, dentro da religião.

Historicamente podem até perceber que, quem manteve a religião viva e lutou pela liberdade de expressão religiosa yorubá, foram as mulheres. Senhoras de axé que sentaram em tronos e estabeleceram tradições na religião.

E lembrando uma grande matriarca da religião yorubá, Maria Bibiana do Espírito Santo, (Mãe Senhora) do Axé Apô Afonjá. 



Luqiam - 23-01-2013


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Imolação

POLÊMICO! Mas, vale a pena refletir.



O sacrifício de animais ainda é um tema bem discutido no meio dos simpatizantes e alguns praticantes da Religião Yorubá. 

Queiro deixar claro aqui, que este post é uma reflexão pessoal sobre o assunto e diga-se, embasada na História, e não nos mitos e práticas atuais.

Primeiro, antes de assustar meus leitores, sou contra essa excesso de imolação nos ritos atuais; E digo excesso porque a própria cultura religiosa yorubá "pede" este tipo de rito - mas, não do jeito praticado hoje.

Vamos voltar um pouco no tempo - lá na Africa; Um país pobre, exótico, e de sociedades nativas primitivas. Isso nos leva a pelo menos um breve entendimento de como eles viam suas necessidades espirituais. Vamos também recordar, que este tipo de prática não se deu só lá; Existiam tribos Celtas, Vikings , sul americanas e australianas que se utilizavam também desses tipos de anátemas.

Bem, para o povo yorubá, a vida e a morte caminhavam juntos, e se sustentavam do mesmo "combustível" - o sangue, chamados por eles de ejè. Os ritos de iniciações principalmente dependiam deste artifício - a imolação. Mas isso por uma simples responsabilidade espiritual denominada - pacto! Para que percebam a diferença da antiguidade para a atualidade, vou comentar como se dava esse processo.

Uma criança, ao estar esperando seu nascimento, estava dedicada ao orixá de sua região. Os pais, ao saberem que assim que nascera a criança deveria ser dedicada a divindade - num conceito de proteção, começavam a se preparar para este rito - de iniciação. Era escolhido o melhor animal de seu rebanho, de preferência aquele animal no qual a divindade preferia. Este animal era cuidado como membro da família, se alimentando do melhor e muitas vezes dormindo ao lado da mulher grávida; Estavam preparando o "melhor" deles para o deus. Ao nascer da criança, ela era preparada para uma série de ritos que se iniciava com banhos de ervas, e barro, pinturas e rezas, até o momento da iniciação. Durante esse período o leite materno era dividido entre o animal e o bebê, o que os tornariam ligados pela fonte geradora da vida - a mãe ( o Sagrado Feminino). No dia da iniciação era preparado um grande banquete para todos os membros sacerdotais e sociais da comunidade. A imolação se dava de maneira rápida, indolor- pois para isso usavam misturas de ervas alucinógenas introduzidas no animal; sendo o sangue lançado na terra para a Grande Mãe ( Odudua) e a carne preparada e servida no banquete para alimentar os participantes. 
É simples entender, pela significação e importância do sangue, como fonte da vida, um simbolismo de que uma deidade estava "nascendo" para aquela criança. O mais curioso, e que não se aplica hoje em dia, é que este tipo de rito só se dava no momento da iniciação, o pacto estava feito - para o resto da vida! Não havia mais a necessidade de sacrifícios futuros. Ofertava-se o sangue do animal, preparado como um "deles" em troca do da criança.

Outro fato curioso e pouco conhecido é o que torna esse rito mais fantástico! Este tipo de procedimento não se dava em todas as tribos. Na religião yorubá nos temos três tipos de sangue e imolações utilizadas : 1- para o nascimento, 2- para o desenvolvimento-crescimento, 3- para a morte - viagem de volta ao Orùm (céu).

Ejé àwó pùpá - sangue vermelho (dos animais, usados nos ritos de iniciação)
Ejé àwó funfun - sangue branco ( das ervas, seiva, usados durante a vida, para alimentar os orixás)
Ejé àwó dúdú - sangue negro ( betumes e minérios em decomposição, usados em ritos de passagem morte)

Observem a NÃO necessidade destes povos em sacrifícios constantes! O que, infelizmente vemos muito hoje de forma absurda e descriminada, talvez como uma forma de chamar a tenção com ritos bizarros e patéticos.

Sei que muitos praticantes vão discordar de minhas colocações; mas, basta um pouquinho de conhecimento histórico para perceber o simbolismo sutil destes ritos.

Ah Luqiam, - "nossos ancestrais escravos sacrificavam muitos animais e até hoje as casas mais antigas o fazem, é uma tradição, e deve ser mantida!" DISCORDO! E vamos novamente viajar no tempo. Por que nossos ancestrais escravos faziam estes frequentes sacrifícios, e que se mantiveram até hoje? Nada tinha a ver com sua religiosidade, mas, simplesmente com a FOME! Um povo escravo, sem comida, e que a única forma de encher suas barriguinhas famintas e desnutridas, era nos momentos de suas celebrações religiosas, daí a quantidade de sacrifícios feitos - Para matar a fome! Basta conhecer um pouco da história para que isso fique claro. O único momento em que nossos ancestrais escravos vivenciavam uma mesa próspera, era quando seus Senhores permitiam suas celebrações - diga-se de passagem escondidas, com intuito de ganhos através da bruxaria dos negros; e para isso doavam vários animais para a imolação, pois era de conhecimento dos colonizadores este tipo de rito yorubá.

Virou moda... e F...! Todos se apoiavam nos Orixás como desculpa para toda hora sacrificar um animal e deixar suas dispensas cheias.

Hoje em dia, pior ainda, isso não cabe mais. A maioria dos praticantes de religião yorubá ganham rios de dinheiro, podendo bancar um bom buffet para suas festas; mas mesmo assim continuam praticando esse excesso de sacrifícios. Suas geladeiras e freezers ficam cheios, chegando até a estragar a carne como já presenciei!

Portanto, sou sim a favor do rito de imolação, desde que seja feito dentro de sua originalidade. Mas, comungar com esse absurdo atual de lavagem de sangue nos templos, de animais não preparados para o determinado fim, e muitas vezes sendo imolados com obés (faca) cega, gerando sofrimento indescritível aos nosso irmãos - CONTRA, CONTRA E CONTRA! 

Sem falar nas aves apodrecendo nas encruzilhadas da vida, como se fosse tudo tão natural... quanta ignorância, ou sei lá... esperteza.

Outro detalhe que vale a pena comentar : A imolação só era praticada para as divindades - precisavam de ejé para renascer no Ayé (terra) e servir de guias protetores de seus dedicados. NUNCA para os Odús, o que infelizmente vemos hoje, como uma das maiores garfias dentro da religião - sacrifícios para os Odús.

Luqiam- 21-01-2013



Em breve

Astrologia Suméria



Iniciação a religião yorubá


(Máscara de Yaô - Ed Junior - artenatelharj.blogspot)

É muito comum hoje em dia ouvir a seguinte frase diante de um jogo de búzios : VOCÊ TEM QUE FAZER O SANTO!

Pelos Deuses, onde já se viu dizer por aí - com tanta convicção : Você tem que ser batizado!, Você tem que entrar para a Maçonaria!, Você tem ser Budista! ...

Onde fica nosso livre arbítrio? Nossas escolhas? A religiosidade é como uma experiência, deve-se experimentá-la. Como vamos saber se um alimento é saboroso ou não ao nosso paladar, se não comermos primeiro? Assim é toda senda espiritual.

NUNCA houve e NUNCA haverá a NECESSIDADE de se iniciar na religião dos orixás! Você pode ser católico sem frequentar a Igreja; Você pode ser budista sem frequentar um mosteiro; Você pode ser seguir a filosofia maçônica sem frequentar uma Loja. E, você pode ser "do santo"/ dedicado a religião, sem ter que se iniciar nela.

Mas, vamos para outro ponto: O que realmente significa uma Iniciação? Do ponto de vista espiritual ou filosófico, significa "dar o primeiro passo" a uma entrega. Entrega essa, que deve ser de coração e vontade, amor e responsabilidade, dedicação e lealdade. Nem todos estão preparados para isso! Quando nos iniciamos ou nos dedicamos a uma senda espiritual, estamos disposto a evoluir e contribuir com o crescimento da mesma; e para isso, será "exigido de nós" tempo e dedicação, para que possamos conhecer, propagar e aplicar nossa fé, ritos e filosofia. Quando se inicia na religião yorubá, não é diferente das outras. Os neófitos passam por um longo período de aprendizado e prática, que os levam a "saber" adorar, cantar, rezar e dançar para os deuses.

Qualquer um pode se iniciar? SIM, desde que, estejam dispostos a se entregar com dedicação aos ritos de passagem que envolve sua caminhada. 

Ah Luqiam, "o 'pai/mãe de santo' disse que tenho cargo na casa, e por isso tenho que fazer o santo"!  Mentira! Não tem que fazer nada, se não sente desejo nem vontade.

A observação se que a pessoa em frente ao oráculo está "destinada" a uma função específica na religião, não significa a obrigatoriedade de se dedicar a mesma. Esta observação quem faz são determinados Odú, que, diga-se de passagem, se apresentam raramente.

Portanto, fica a dica: Não caiam em ciladas... a caminhada é longa e árdua, apesar de prazerosa  Mas, façam sempre pela espiritualidade com amor e vontade, e nunca por "Obrigação"!

Luqiam - 21-01-2013




Ebó resolve tudo?



Primeiro vamos definir o que significa Ebó. 

Literalmente a palavra Ebó vem de uma junção vocábulo yorubá que significa Èmi (pronome eu) + Bó (verbo cobrir). Emìbó = corruptela Ebó.

É de costume nas culturas nativas se fazer oferendas e anátemas para as divindades, e uma forma muito comum era "cobrir" os santuários de objetos, alimentos destinados a divindade. Assim sendo, cobriam a terra no local onde a divindade habitava, ofertando seu anátema.

Sabemos que o "espírito" se alimenta do que etéreo  portanto o odor e luz são fundamentais; é aconselhável não deixar as oferendas alimentícias se deteriorarem diante do santuário.

Bem, "cobriu-se" ou ofertou a divindade determinada oferenda; Foi aceita? Vamos lembrar que para o Todo não existe certo nem errado, apenas desperdício de energia e tempo. Mas, o que determina a "necessidade" de um ebó?

O costume surgiu diante do oráculo. Quando as pessoas consultavam Ifá ( divindade que vê o futuro), seus sacerdotes pediam em troca da visão, uma oferenda a seus deuses. E assim se foi construindo essa egrégora de que toda leitura "pede" um ebó. Entretanto, vamos observar duas realidades diferentes - a deles, sem moeda corrente, sendo vegetais e caça como paga; e a nossa - já tendo nossa moeda corrente. Assim, ao meu ver, não há necessidade, hoje em dia, de toda leitura, ser solicitada a preparação de ebós. Já  recebemos em $$$ e com ele, vamos fazer pelos "Nossos".

Então, livre exceção, como ditar ebós para tudo? No meu ponto de vista, uma boa leitura e observação detalhada dos Odús e Omo Odús, é que vai determinar se há realmente uma necessidade de que alguma oferenda seja feita. Lembrando que, não podemos jogar para as divindades yorubá as responsabilidades sobre nossos erros e frustrações  Sendo assim, quando um determinado Odú solicita um anátema, isso quer dizer que Ele lhe fortalecerá para resolver sua situação, e não que Ele resolverá para você.

Então, vamos ficar alertas! Nem a todo Odú ou Orixá deve ser ofertado ebó desnecessariamente  Vamos observar que tudo segue seu fluxo natural, e como tal - uma religião da Natureza, deve seguir seu fluxo.

Luqiam (21-01-2013)



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Árvore sagrada - baobá


Transe ou Incorporação?

"Baixar o santo"? Que é isso? Particularmente considero horrível este termo. Na religião yorubá o fenômeno atribuído a este tipo de manifestação se chama Transe. Vamos lá para as diferenças, assim será fácil entender:



Transe - Estado alterado de consciência, provocado por uma hipnose induzida, através de instrumentos sonoros ou visuais. No caso dos ritos yorubá o som dos atabaques e instrumentos ritualísticos. 
O transe se dá com o consentimento do Ser, através da entrega psíquica  Durante o transe, a pessoa manifesta comportamento motores induzido pelo conhecimento adquirido a uma determinada função.



Incorporação - ou psico-praxia  é uma pratica adotada na doutrina espírita de Allan Kardec, na qual o médium permite que um espirito se manifeste através de seu corpo. É importante salientar que esse fenômeno ocorre com a interação do corpo espiritual e físico.

Em ambos os casos não há ausência da consciência do Ser.

(Texto de Luqiam Osahar - 16-01-2013)


A Religião Yorubá

Antes de expor minhas colocações, vejam o que diz a Wikipedia sobre o tema: http://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%A3o_yoruba

É comum, quando se trata de religiosidade afro-brasileira, as pessoas me perguntar: Você é de nação?
E respondo: Sim. 
Mas, o que quer dizer isso?

Com a globalização e miscigenação da religiosidade africana, nos deparamos com diversos sincretismos e associações. O que é muito natural. Entretanto, é importante salientar que o culto nativo africano original segue hierarquia sacerdotal e ritual, e muitas vezes são tida como "tradições orais", onde os mais velhos transmitem o conhecimento aos mais novos, geralmente dentro da própria comunidade, sem a necessidade da escrita. Mas, vamos lembrar que isso nunca foi um mecanismo de defesa - segredo, e sim, simplesmente porque desconheciam a escrita, ou não a usavam dentro da religiosidade.

Com o advento da escravidão e perseguição religiosa, a cultura africana necessitou de certa forma se "esconder" para sobreviver, e isso levou ao passo da sincretização - uma forma disfarçada de cultuar seus deuses; consequentemente o próximo passo seria adaptar os ritos e os tornar menos primitivo. Hoje, os deuses africanos são cultuados com mais liberdade - ainda havendo preconceito e ignorância.

A Umbanda, criada por Zélio Fernandino de Moraes, foi fundamental na transição de aceitação desses deuses, apesar do sincretismo ser a base fundamental para a religiosidade na Umbanda. Aproveitando o parágrafo, quero deixar claro que, conheço a cultura yorubá, mas em Umbanda sou leigo (heheheh).

O culto tradicional, ou pelo menos, o que chega mais perto de sua realidade ficou por conta do que chamamos hoje de "nações", mais conhecidas como Ketu, Jêje, Nagô, Angola, fon e muitas outras. A mais popular, e isso se dá por conta do movimento de liberdade religiosa na Bahia, ficou por conta do Ketu; que em sua realidade nada mais é do que uma mistura de diversas tribos, criando assim sua metodologia/tradição própria e difundida atualmente. Por isso é comum vermos em templos de ketu o culto a "entidades" que não fazem parte da religião yorubá - como: pombogiras, caboclos, pretos velhos, ciganos etc.

Entenda-se que, com advento da popularização, muita coisa se perdeu ao longo dos tempos, o que não desmerece o respeito e aplicação da religiosidade, tampouco sua fé. Apesar de se tratar de culto nativo africano e muitas vezes primitivo, não coloca a religião yorubá em um patamar melhor ou pior de que qualquer outra religião; estamos falando de religiosidade muito mais telúrica do que cósmica, e isso talvez pese em seus ritos. Mas, mesmo sendo em sua maioria telúrica, a religião dos orixás também está voltada aos céus (orùm), o que explanarei em outro tópico - Orixás e astronomia.

Dos ritos.

Como dito antes, cada tribo/nação tinha seu próprio rito, e isso é o que torna fascinante a religião yorubá e o estudo dos deuses africanos. Diferente do que temos hoje em dia na Africa - quando cultuados, os orixás eram "padroeiros/padroeiras" de cada tribo, e isso fazia com que todos os membros daquela comunidade fossem devotos (filhos) daquela divindade.

Os ritos por serem mais telúricos exigiam a manipulação de elementos da terra, como ervas, barro, minérios, animais, assim como a alquimia entre os elementos primordiais (Terra-Água-Fogo-Ar), rezas, cantos e danças. Uma religiosidade simples, bela e voltada a celebração e sobrevivência  Festejavam a colheita, a sexualidade, a vida e a morte. Os deuses "conviviam" entre seus filhos, fundamentados em códigos de ética social e religiosa, tudo de forma muito natural - SEM OBRIGAÇÃO!


Das indumentarias.

Sinto muito comentar sobre isso, pois ao meu ver, é neste aspecto visual que está a chave de muita discordância e fuga de sua originalidade, e também, o instrumento de ostentação, glamour e egocentrismo que impera na religião hoje em dia.

Primeiro vamos fazer uma viajem de volta a época da escravidão, e não precisa ser nenhum Expert em história para observar e entender como nossos ancestrais africanos viviam, vestiam, comiam etc. É de extrema ignorância pensar que uma divindade, em uma tribo nativa africana, se paramentava como destaque de Escola de Samba! Só aqui mesmo...



Vamos colocar os neurônios para funcionar! Por se tratar de uma religiosidade e divindades de natureza telúrica, sua representações - indumentárias, estão diretamente e estritamente ligadas à Terra. Assim sendo, seus instrumentos físicos - ferramentas e armas; e espirituais - danças e movimentos, deveriam estar associada a este aspecto. Madeira, ervas, palha, minério, máscaras, sementes, couro, algodão cru... quando não, nus!

Mas, aí vem a questão : Quando os orixás começaram a ser representados com vestimentas contemporâneas  como saias rodadas, espartilhos, calças, chapéus etc...?

Critico SIM a ostentação e exageros de brilho e enfeites nas divindades yorubá! Mas... devo concordar que tudo isso se iniciou por uma necessidade de adaptação e sobrevivência. E voltamos no tempo a época da escravidão  pois como dito anteriormente, tudo começou aqui, na colonização. Os nossos ancestrais não podiam representar seus deuses em sua originalidade, haja vista muita vezes de forma exótica; e isso, com toda certeza chamaria a atenção de seus colonizadores - católicos europeus. Por outro lado, precisavam praticar sua religiosidade; e uma forma simples e fácil seria representá-los (vesti-los) de forma majestosa e significantemente à vista do povo europeu (seus colonizadores). E assim, mais uma revolução na forma original dos deuses yorubá surge. Uma mistura de vestimentas europeias e africanas surgia, uma nova "moda" no circuito "Yorubá Fashion Age". Saias rodadas e armadas + Alakàs; Ojás + Calças; Laçarotes + bantès.... Até aí, tudo bem! Mas, o exagero de hoje me deixa enojado, foje completamente do propósito original, e os deuses belos e humildes em sua simplicidade, dão lugar a energias ostentadoras e egocêntricas.

Deixo claro que essa é uma leitura minha, e não generalizo. Conheci e conheço templos que não se comportam dessa forma. Mas, infelizmente são a minoria remanescente de uma verdadeira essência humilde e belíssima, chamada Orì Ásè (orixá). Entretanto, na sua maioria, o lema é : Quem brilha mais, é mais louvado.

Infelizmente, muitos não percebem a realidade envolta no culto aos deuses yorubá; o conceito de prosperidade e beleza nosso não é o mesmo desse povo; e isso, muitas vezes levam os praticantes a usarem de argumentos toscos como: "Orixá é riqueza"; "Orixá é beleza"; "Orixá é brilho"... e são estes mesmos argumentos que levam uma multidão de "desesperados" a buscarem a religião yorubá como uma tábua de salvação para suas frustrações amorosas, financeiras, profissionais, sociais e familiares. Que pena! O que, fatalmente não acontece - a salvação; e automaticamente a religiosidade é difamada e criticada. Vamos ACORDAR!

Quem precisa de brilho, saúde, dinheiro, glamour... somos nós e não os deuses! Mas então, o que dizer do ouro, prata, bronze e tantos minérios preciosos citados nos itàns (contos) yorubá; ou das grandes civilizações religiosas que se cobriam de ouro e pedras preciosas?

Vamos colocar novamente a cabecinha para funcionar: os valores atribuídos a estas peças preciosas, nas civilizações antigas/primitivas, não eram valores materiais/comerciais, e sim valores minerais/alquímicos.

Este foi um breve comentário sobre minha visão dentro da religiosidade yorubá, nos próximos post estarei falando sobre: ritos, divindades e ancestralidade.

Espero que tenham gostado, e reflitam sobre.

(Texto de Luqiam Osahar - 16-01-2013)